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Para quem tem dificuldades em adormecer à noite, pensar na possibilidade de adormecer com facilidade em qualquer lado pode parecer aliciante. Porém, esta aparente vantagem pode ser percepcionada, clinicamente, com algumas fragilidades.
Numa entrevista exclusiva ao Lifestyle ao Minuto, o neurologista e Somnologista Miguel Miranda, da SleepLab, explicou o que está na origem desta condição do sono conhecida por narcolepsia.
Esta doença neurológica crónica afeta a forma como o cérebro regula o sono e a vigília.
"Durante o dia, o doente com narcolepsia sofre de sonolência marcada, independentemente de ter dormido horas suficientes na noite anterior. Tem dificuldade em manter-se acordado e atento, podendo adormecer de repente, sem qualquer aviso. À noite, o sono destes doentes é tipicamente fragmentado, com múltiplos despertares", descreve o especialista.
Leia abaixo a entrevista completa.
Quais são os sintomas mais comuns de pessoas com narcolepsia?
Alguns doentes apresentam ainda sintomas mais específicos, como a cataplexia, que consiste na perda súbita e passageira da força muscular, sem perda de consciência, sendo estes episódios geralmente desencadeados por emoções fortes, como o riso.
Com menos frequência, alguns doentes podem apresentar pesadelos frequentes associados a comportamentos motores durante o sono, podem apresentar episódios de paralisia do sono (incapacidade temporária de se mexer ao acordar) e eventualmente alucinações vívidas nos momentos de transição entre o sono e a vigília.
Há comportamentos de risco ou hábitos que intensificam este problema?
A narcolepsia não é causada por comportamentos de risco, nem por dormir pouco, usar ecrãs ou ter stress. No entanto, fatores como privação de sono, horários irregulares ou consumo de álcool podem agravar os sintomas em quem já tem a doença.
O que acontece no cérebro?
Na narcolepsia, o problema central acontece no cérebro, mais concretamente num sistema que ajuda a manter-nos acordados e a regular as diferentes fases do sono. Nestes doentes (sobretudo nos casos de narcolepsia tipo 1), há uma perda significativa dos neurónios que produzem uma substância chamada orexina (ou hipocretina), localizada numa região profunda do cérebro chamada hipotálamo. A orexina funciona como um “estabilizador” do estado de vigília, ajudando o cérebro a manter-se acordado de forma contínua e a evitar transições inadequadas entre estar acordado e a sonhar. Quando este sistema falha, o cérebro torna-se instável: surgem episódios de sonolência intensa durante o dia e fenómenos como a cataplexia, as alucinações ou a paralisia do sono.
Qual é a explicação deste fenómeno cerebral?
A causa exata da narcolepsia ainda não é totalmente compreendida, mas sabe-se hoje que resulta de uma combinação de predisposição genética e fatores ambientais. Em particular, vários estudos mostraram uma relação temporal entre o aumento do número de casos de narcolepsia e pandemias de gripe. Pensa-se que, em pessoas geneticamente suscetíveis, a resposta do sistema imunitário à infeção possa, por engano, atacar os neurónios que produzem orexina no cérebro, levando ao desenvolvimento da doença.
Neurologista e Somnologista Sleeplab
© Miguel Miranda
Como se faz o diagnóstico?
O diagnóstico de narcolepsia é clínico, acontecendo geralmente em contexto de consulta de Neurologia ou Medicina do Sono. Começamos por ouvir atentamente as queixas do doente. Posteriormente, para confirmar o diagnóstico, são realizados exames de sono em regime de laboratório. Começamos por realizar uma polissonografia, onde avaliamos o sono durante a noite e excluímos outras doenças do sono que possam causar sonolência diurna, como a apneia do sono. No dia seguinte, realizamos o teste das latências múltiplas do sono, que, no fundo, é um teste que avalia quão rapidamente uma pessoa adormece em várias sestas programadas.
Em casos selecionados, pode ser necessário realizar exames complementares mais específicos, como uma punção lombar para dosear os níveis de hipocretina disponíveis a nível cerebral.
Qualquer pessoa pode ter narcolepsia?
Qualquer pessoa pode desenvolver narcolepsia, mas a doença é relativamente rara e afeta apenas uma pequena percentagem da população.
Quem é mais afetado?
Pode surgir em homens e mulheres com igual frequência e não está diretamente relacionada com o estilo de vida ou hábitos de sono. Apesar de existir uma predisposição genética, a grande maioria dos casos não é familiar, ou seja, não é habitual haver vários membros da mesma família com a doença.
A narcolepsia começa mais frequentemente em idades jovens, com um pico de diagnósticos na adolescência e no início da idade adulta, sobretudo entre a segunda e terceira décadas de vida.
Quais as consequências associadas à narcolepsia?
A narcolepsia pode ter consequências significativas na vida diária, afetando o desempenho escolar e profissional, as relações sociais e a segurança. A sonolência excessiva durante o dia dificulta a concentração, a memória e a produtividade, aumentando o risco de acidentes, nomeadamente na condução ou no trabalho. Sintomas como a cataplexia podem ser embaraçosos e levar à evicção de situações sociais, enquanto o sono noturno fragmentado contribui para cansaço persistente.
Além disso, a narcolepsia está frequentemente associada ansiedade, depressão e excesso de peso. Apesar de não ser uma doença fatal, o seu impacto na qualidade de vida pode ser profundo, sobretudo quando o diagnóstico e o tratamento são atrasados.
É possível amenizar o problema?
Sim, há tratamento para a narcolepsia, embora atualmente não exista uma cura definitiva. O tratamento é sobretudo sintomático e tem como objetivo reduzir a sonolência excessiva durante o dia, controlar a cataplexia e melhorar a qualidade do sono noturno. Para isso, recorre-se a uma combinação de medidas não farmacológicas e medicação, escolhidas de forma individualizada na consulta. Estratégias simples, como sestas curtas planeadas ao longo do dia, podem ajudar a melhorar o estado de alerta e a funcionar melhor no dia-a-dia.
Há tratamento clínico?
Os medicamentos existentes permitem, à maioria dos doentes, amenizar significativamente os sintomas, embora nem sempre os eliminem por completo. Alguns medicamentos reduzem a sonolência diurna, enquanto outros ajudam a controlar a cataplexia e a estabilizar o sono noturno. Infelizmente, em Portugal, alguns destes medicamentos não estão disponíveis.
Ainda assim, com um diagnóstico atempado, acompanhamento regular e ajustes do tratamento ao longo do tempo, muitas pessoas com narcolepsia conseguem estudar, trabalhar e ter uma vida ativa, com uma melhoria clara da qualidade de vida.
Atualmente, existem novos medicamentos em ensaios clínicos com resultados muito entusiasmantes, que atuam diretamente nos mecanismos da doença e que, muito provavelmente, irão mudar de forma profunda o tratamento e o paradigma da narcolepsia nos próximos anos.
IN:NM
