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Entretanto, foram identificados dois casos em Portugal - um nos Açores e outro em Famalicão - mas sem motivo para alarme, uma vez que não estão relacionados com o surto lá fora e não têm potencial de contágio. Falámos com dois especialistas para perceber melhor o que é, afinal, a meningite, que tipos de infeção existem e se, por cá, há razões para preocupação.
António Hipólito de Aguiar, médico de clínica geral e presidente da Associação Médicos do Mundo, começa por esclarecer que a meningite se trata de "uma inflamação das membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal".
Quando há suspeita de meningite, é urgente "analisar o líquido cefalorraquidiano (LCR), que é um líquido transparente que circula à volta do cérebro e da medula" e que tem como função a proteção do sistema nervoso central, transportando nutrientes e removendo resíduos.
Por estar em "contacto direto com o cérebro, mostra sinais claros de infeção" e permite, por isso, identificar a causa exata. Segundo este especialista, "é como ir diretamente à fonte do problema para perceber o que está a causar a doença".
Há risco de contrair a doença ao viajar agora para o Reino Unido?
Madalena Meira Nisa, pediatra no Hospital CUF Descobertas, adianta que a transmissão desta doença "ocorre por contacto com aerossóis de gotículas respiratórias" e, por isso, "implica um contacto próximo e prolongado, como por exemplo situações de coabitação, participação em eventos com grande concentração de pessoas, sobretudo em espaços fechados, ou ainda por via de um contacto íntimo".
Assim, "o risco de contrair doença meningocócica numa visita ocasional e de curta duração ao Reino Unido é baixo".
Ainda assim, segundo a explicação de António Hipólito de Aguiar, a transmissibilidade pode "depender do tipo" da doença.
Apesar de as meningites bacterianas e virais serem "transmissíveis através de gotículas respiratórias (tosse, espirros, contacto próximo), se for fúngica ou parasitária, geralmente não são transmissíveis entre pessoas".
Como saber se é o mesmo surto (Reino Unido vs Portugal)?
O presidente da Associação Médicos do Mundo refere que para determinar se determinados casos fazem ou não parte do mesmo surto, as autoridades de saúde têm de analisar os seguintes parâmetros:
- Tipo de agente potencialmente causador (pode ser uma bactéria, vírus ou fungo);
- A estirpe específica, ou seja, a “família” a que o agente causador pertence, e que é feito através de uma análise genética/laboratorial;
- A eventual ligação epidemiológica (pessoas que tenham viajado recentemente entre os dois destinos, contactos que possam ter existido, eventos comuns que as pessoas infetadas possam ter frequentado).
"Sem essa confirmação laboratorial, não se pode assumir que seja o mesmo surto", acrescenta.
Tipos de meningite
Segundo António de Aguiar, estes são os principais tipos da doença:
Meningite viral: "considerada a mais comum e geralmente mais leve".
Meningite bacteriana: "a mais grave (provocada geralmente por meningococo ou pneumococo)".
Meningite fúngica: "rara e afeta sobretudo pessoas com imunidade baixa
Apesar de muito rara, o médico considera ainda a possibilidade de meningites parasitárias.
Como funciona o plano nacional de vacinação no que respeita a esta doença?
A pediatra Madalena Meira Nisa esclarece que a doença meningocócica é causada pela bactéria Neisseria meningitidis, "sendo os serogrupos B, C, W e Y os mais frequentemente associados a doença invasiva".
Relativamente ao serogrupo B, "responsável pelo surto de meningite no Reino Unido, o Programa Nacional de Vacinação passou a contemplar, desde 2020, a vacina contra esta doença, abrangendo todas as crianças nascidas a partir de 2019, inclusive. A administração desta vacina está prevista aos 2, 4 e 12 meses de idade".
"No que respeita aos serogrupos A, C, W, Y, o Programa Nacional de Vacinação prevê a vacinação universal contra estes desde 2025 com uma dose única aos 12 meses de idade", acrescenta.
No entanto, elucida a médica que "crianças e adolescentes nascidos anteriormente às datas acima referidas não estão incluídos nestes esquemas de vacinação. Perante estas situações, a vacinação pode ser realizada em regime de vacinação extra-plano, mediante prescrição médica, a cargo de cada pessoa".
Quais são as medidas de prevenção a adotar?
"A principal medida de prevenção da doença meningocócica é a vacinação, através do cumprimento do esquema universal do Programa Nacional de Vacinação", aponta a pediatra e esclarece que só isso pode prevenir a ocorrência de "formas graves da doença, reduz o risco de morte e protege a comunidade".
Outras medidas gerais que poderão ajudar a reduzir o risco de infeção:
- Lavar frequentemente as mãos;
- Cumprir a etiqueta respiratória;
- Não partilhar objetos pessoais;
- Evitar contactos próximos com pessoas com sintomas de infeção respiratória.
Como é feito o diagnóstico
Após a análise de alguns dos sintomas mais comuns, ambos os especialistas realçam que se torna urgente tomar medidas.
Sintomas comuns:
- Dores de cabeça fortes;
- Febre;
- Mal-estar e prostração;
- Sensibilidade à luz;
- Náuseas e vómitos;
- Rigidez na nuca.
Procedimentos clínicos para fazer o despiste à doença:
- Punção lombar (análise do líquido cefalorraquidiano);
- Análises de sangue;
- Testes PCR, (semelhantes aos que se generalizaram na COVID), e que servem para identificar o agente causador;
- Exames de Imagem (TAC/RM, em alguns casos).
Grupos de risco
- Bebés e crianças pequenas;
- Jovens adultos (especialmente em ambientes fechados, como escolas, ginásios e universidades);
- Idosos;
- Pessoas com sistema imunitário enfraquecido;
- Pessoas não vacinadas contra os agentes causadores (bactérias).
Note que, nalguns casos, "a meningite pode evoluir rapidamente, especialmente a bacteriana, e produzir danos cerebrais, perda de audição, convulsões e sepsis. Pode ser fatal se não tratada rapidamente", descreve António Hipólito de Aguiar.
Em que consiste o tratamento desta doença?
Segundo estes especialistas, tudo depende da causa.
António Hipólito de Aguiar, distingue meningite bacteriana, da viral e da fúngica. No que respeita ao tratamento do primeiro tipo de meningite, será necessário o uso de "antibióticos urgentes e opta-se, habitualmente, pelo internamento hospitalar". Para a meningite viral, "geralmente, faz-se o denominado tratamento de suporte", que consiste numa estratégia de repouso e hidratação. Já para a meningite fúngica, "usam-se antifúngicos específicos".
Saliente-se que, sempre que houver suspeita da doença, "é sempre uma emergência médica", remata o médico.
IN:NM
